A transformação da hóstia em carne de Cristo é um teatro que exprime de maneira miraculosa vontade de dogma do cristianismo, e sua incrível sofisticação e sagacidade. Nela se agregaram diversas técnicas para compor essa grande obra que fascina os fieis. Vejam que não é apenas um ritual mágico, como qualquer feitiçaria de xamã. Aqui vemos um rigor, um razão, uma filosofia, um poder que se cristaliza racionalizando o suposto mistério. Há uma prova, um argumento fornecido por Aristóteles via Tomás de Aquino, o que de maneira nenhuma despreza narrativas miraculosas, como o milagre de Lanciano, que, posteriormente seria examinado e teria o aval de cientistas. Vejam só que aqui entram preocupações que estão para além de uma questão de fé; o que se quer é uma verdade inquestionável em múltiplos registros; filosofia, relato miraculoso, e ciência se entrecruzam para dar estatuto de verdade à transubstanciação.
A transubstanciação é o produto final da vontade de dogma, a grande obra operada pelas articulações de múltiplas estratégias. É a transformação de um substância vulgar, leve, comum numa substância divina, na carne de Deus. A transubstanciação é a maneira de fabricar dogmas, verdades com o peso de certeza divina.
Onde quer que se veja um dogma, ver-se-á transubstanciação, o poder de compor certezas divinas a partir de coisas comuns, de transmutar substâncias, tornar o poético em científico, o mito em certeza absoluta, um conjunto de metáforas em verdades eternas que pendem da boca de Deus.
E vejam que a transubstanciação tem o seu lugar próprio de acontecer, e seu agente especial, o sacerdote. A transubstanciação é a teatralização organizada que manifesta o fascinante poder do sacerdote, a exibição pública e ao mesmo tempo sutil de seu poder de transubstanciar, de tornar o elemento comum em divino, de transformar a hóstia na carne de Deus. E em um tempo certo, durante certo ritual, e liturgia, a Missa. Aqui é interessante o sentido de Missa, missão. Como se a missão, o imperativo de expansão, de generalização universal do poder sacerdotal, fosse realizado durante o teatro da transubstanciação. A transubstanciação é o aguilhão da missão, é o modo como ela se realiza, fascinando os homens, seduzindo seus intelectos e sua fé ao dogma, ao poder do sacerdote, subordinando o povo a fazer parte do seu domínio, a Igreja.
A vontade de dogma não se contenta em cativar a fé, ela cobiça a razão, o entendimento, quer impor uma estrutura do pensamento. Apenas a fé não responde ao poder do sacerdote, não basta para subordinar-se a ele. Assim, é cunhado um argumentum, uma racionalidade, e foi o que o Doutor angélico Tomas de Aquino fez, usando os conceitos ato, potencia, substancia e acidentes de Aristóteles. Assim ficaram divinizadas não apenas a hóstia no momento da eucaristia, mas a maneira aristotélica de pensar. Aristóteles foi transformado na carne de Deus pelo sacerdote católico. Aristóteles vira dogma, ortodoxia do pensamento, é transubstanciado. Transubstanciação é o poder manifesto de transfigurar uma substância comum em substância divina, de criar Deus a partir do vulgar. O que é um dogma senão um ordenamento de frases tornado em carne de Deus, inquestionável, absoluto? Uma religião imperialista, que se pretenda universal, não poderá se expandir sem transubstanciação; não poderá garantir o seu fanatismo sem isso.
O elemento final e arrematador da transubstanciação é o ser ela um processo de comunhão, o sentido eucarístico. Ela é feita em participação com os fieis, que a recebem dócil e fervorosamente como renovação do vínculo com a Igreja. Aquele que come a carne Deus da mão do sacerdote revive sem pacto de comunhão com a Igreja. Ou seja, o liame que une cada indivíduo à Igreja é a fé no poder transmutador do sacerdote, todos devem comer de sua mão, crer que a hóstia vira a Carne de Deus em suas mãos. Assim, é o poder sacerdotal que é preservado e renovado semanalmente, a cada realização da Missa.
A técnica da transubstanciação não é patrimônio do Catolicismo, mas onde quer que haja Dogma haverá o poder que garante esse fenômeno, esse milagre. Um milagre racionalizável, visto que é pela articulações de múltiplas estratégias, discursivas, teatrais, narrativas... que se produz essas causalidades internas, demonstráveis, persuasivas, que adquirem o status de certeza absoluta. É tolo dizer que a transubstanciação é algo ingênuo e ignorante, que seduz apenas incautos; na verdade ela é uma artimanha sofisticada, que pretende ser uma lógica implacável.
Não deixa de ser significativo que o sacerdote reserve o sangue apenas pra ele, que apenas ele beba do Sangue de Cristo. O saboroso, odorífero, escarlate vinho, elemento das festas e do cotidiano do povo. Não é uma grande sagacidade que o sacerdote prive o povo do vinho na missa? Assim é evitado associações indesejáveis com a vida comum; o sabor do vinho poderá evocar alegria, um gozo ausente da austeridade imposta; o vinho poderá fazer recordar os festins e a embriaguez, e suscitar paixões perigosas, desejos desviados, que se levantem contra a lógica da transubstanciação, intuições que de repente percebam que aquilo é trigo e vinho e não Carne de Deus. Maravilhosa percepção do sacerdote, que trata de exorcizar a perigosa embriaguez do seu domínio! A embriaguez é uma ameaça ao Dogma, a sua mecânica de causas e efeitos, aos rituais militarizados, comedidos e disciplinados que lhe dão persuasão. A embriaguez, facilmente associado ao êxtase,à vida profana, à reviravolta de paixões, pode emperrar a participação na transubstanciação. Então o sacerdote impõe a hóstia, elemento já sacro, separado da vida ordinária, sem gosto, sem cheiro, sem poupa, árido. Não mais o pão como primitivamente, mas a hóstia, meio caminho andado para a transubstanciação, afinal, o ser incolor, inodoro, sem gosto, já não se assemelha bastante a substância da Carne de Deus? Tal como essa Carne de Deus e essa hóstia serão os dogmas do sacerdotes, verdades sem gosto, inimigas das perigosas paixões, e com verdades assim que os fieis deverão matar a fome. O vinho o sacerdote reservará pra si. Ele, consciente da mecânica do seu poder, malicioso, sabe muito bem quem é o Deus da Missa, capaz de transformar a hóstia em Carne de Deus. A ele os dogmas não se aplicam; a ele a hóstia, incolor e austera não convêm, mas o rubro vinho; a vida instintiva, a luxúria, a paixão embriagante, o sangue de Deus, ele o reservará sutilmente para si mesmo. A hóstia seja para os fieis, e o vinho para o único Deus da Missa, o sacerdote.
Al Duarte
janeiro de 2011
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