Não queremos destruir o cristianismo – nossa missão é mais positiva, ainda que seja mesmo necessário arrancar para plantar e derribar para edificar. Mas, que toda a destruição seja acidental – construir seja sempre a meta essencial! O que queremos é tornar mais evidente, mais nítido, mais luzivo – em meio a toda essa nebulosidade atual – a infinita distância qualitativa entre a Boa Nova de Jesus, a existência por essa Boa Nova, do chamado cristianismo, esse engano secular cristalizado. É fascinante como, mesmo estando em vias de caducar, mesmo que esteja no ar e nas intuições dos frustrados uma desconfiança ferina de que “o rei está nu”, haja ainda reformadores, heróis que querem salvar seus vestígios da dissolução que o tempo opera nas tradições humanas. Dizem que o inferno está cheio de “boas” intenções – ora, são esses heróis reformadores que renovam o fôlego de vida desse cadáver gigante, tão pesado sobre o peito dos que “desejam entrar” – é uma carga demasiado pesada, uma tonelada secular... Já é tempo dos restauradores de muralhas passarem zelar pela vida ao invés de pedras. O que queremos é abrir vácuos nesse chamado cristianismo, buracos de ausência; queremos que nossos escritos sejam ferramentas para cavar túneis para fora dessa caverna, ou mesmo, uma caverna onde moremos longe dessa atmosfera pútrida para viver a existência crística, ao ar puro da Boa Nova de Jesus – Não é a palavra de Deus como o martelo que esmiúça rochas?...Não somos tão ingênuos, não podemos destruir esse dragão, essa besta de tantas cabeças! Mas, podemos deixar claro a diferença, separando o precioso do vil – parece-nos que não é tão obvia essa distinção, aliás, tornaram tudo tão cinzento, tão sincrético, tão enevoado, que já não é tão obvia a distância entre Cristo e Mamon. O que? Construir um novo templo? Entrar nesse competitivo e lucrativo mercado, exibindo um novíssimo produto? Fundar uma igreja (por que todos os dias há fundações de igrejas, é assim que traem o Único Fundador, aquele que pode ser a Pedra angular)? Que o escárnio de Elias aos profetas de Baal esteja sempre afiado em nossa boca! Longe de nós esse “ato heróico”! Que todo homem de fé esteja para além da religião e do império dos sacerdotes! Que todo homem que suspira por Deus, chegue-se unicamente ao único Mestre – Jesus! Portanto, após ler-nos, esqueçam-nos! Para o bem de todos, esqueçam-nos! Quem é Paulo e Apolo? (Muito menos quem não é nem um Paulo e um Apolo) Esqueçam-nos e adore a Deus, pois este é homem pecador!

terça-feira, 1 de maio de 2012

O ESQUECIDO FATALISMO DO NOVO TESTAMENTO


No Novo Testamento existem certas expressões que são terríveis e graves demais. A Teologia trata com elas de maneira insegura, indecisa; oras quer esquecê-las, assustadoras que são, e oras quer interpretá-las e diluí-las, torná-las menos terríveis. Que terribilidade é essa ? O fatalismo, o “destinismo” expresso no pensamento desses antigos autores: “Um homem crê ou não por puro destino! Um homem ruma à perdição ou salvação determinado de antemão!” Nenhum teólogo ou devoto consegue mais suportar essas coisas, outrora um tanto obvio para aquela gente. Os atuais religiosos blasfemariam caso pudessem de fato LER o livro sacro que amam. A fé para aqueles homens era apenas a “ponta do iceberg”, uma evidencia de forças mais profundas e obscuras, que se ramificavam até a “Vontade de Deus” - que nessa atmosfera, tinha um matiz cósmico, misterioso, nada metafísico; nada parecido com uma volição antropomórfica de um Deus-reflexo-do-Homem. Nessas expressões fatalistas sinto o cheiro de um tempo em que ilusões como “livre arbítrio”, “direitos humanos”, “humanismo” ainda não envenenavam a honestidade de uma verdade – ainda não constituíam verdades! É um sintoma da debilidade dos modernos leitores da Bíblia a maneira como tratam o fatalismo neotestamentário. Ah, mas como poderia ser diferente? Falta-lhes a devida estética, a leveza... Sobra-lhes a vontade de dogma, e a nevrose de “fundar”, de instaurar sistemas teológicos. Estão privados da arte e da calma daquele primitivo pensamento religioso. O cientificismo e a Historia da filosofia fez as mentes pesadas demais para voos assim. E, cá para nós, não seria preciso intuir ou inventar novos fatalismos? Claro, mas as faculdades e recursos que o homem contemporâneo dispõe são imprestáveis. Vejam por exemplo o determinismo que impera hoje, esse engenho da ciência biológica, segundo qual as informações contidas nos genes decretam o que somos e seremos! Que mal gosto! Com isso matamos o espírito e guardamos os restos mortais e transcendentais de Deus no código genético humano. A morte de Deus nos tornou em animais que não podem transcender a organização do corpo “descoberta” pela Biologia. Que mal gosto! Se os fatalismos da ciência vencem, a evolução é o retorno dos macacos! Apenas a arte sabe criar bons fatalismos! Não seria preciso, contra todos os contemporâneos humanismos e moralismos, intuir e inventar novos fatalismos?


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

TRANSUBSTANCIAÇÃO


A transformação da hóstia em carne de Cristo é um teatro que exprime de maneira miraculosa vontade de dogma do cristianismo, e sua incrível sofisticação e sagacidade. Nela se agregaram diversas técnicas para compor essa grande obra que fascina os fieis. Vejam que não é apenas um ritual mágico, como qualquer feitiçaria de xamã. Aqui vemos um rigor, um razão, uma filosofia, um poder que se cristaliza racionalizando o suposto mistério. Há uma prova, um argumento fornecido por Aristóteles via Tomás de Aquino, o que de maneira nenhuma despreza narrativas miraculosas, como o milagre de Lanciano, que, posteriormente seria examinado e teria o aval de cientistas. Vejam só que aqui entram preocupações que estão para além de uma questão de fé; o que se quer é uma verdade inquestionável em múltiplos registros; filosofia, relato miraculoso, e ciência se entrecruzam para dar estatuto de verdade à transubstanciação.

A transubstanciação é o produto final da vontade de dogma, a grande obra operada pelas articulações de múltiplas estratégias. É a transformação de um substância vulgar, leve, comum numa substância divina, na carne de Deus. A transubstanciação é a maneira de fabricar dogmas, verdades com o peso de certeza divina.

Onde quer que se veja um dogma, ver-se-á transubstanciação, o poder de compor certezas divinas a partir de coisas comuns, de transmutar substâncias, tornar o poético em científico, o mito em certeza absoluta, um conjunto de metáforas em verdades eternas que pendem da boca de Deus.

E vejam que a transubstanciação tem o seu lugar próprio de acontecer, e seu agente especial, o sacerdote. A transubstanciação é a teatralização organizada que manifesta o fascinante poder do sacerdote, a exibição pública e ao mesmo tempo sutil de seu poder de transubstanciar, de tornar o elemento comum em divino, de transformar a hóstia na carne de Deus. E em um tempo certo, durante certo ritual, e liturgia, a Missa. Aqui é interessante o sentido de Missa, missão. Como se a missão, o imperativo de expansão, de generalização universal do poder sacerdotal, fosse realizado durante o teatro da transubstanciação. A transubstanciação é o aguilhão da missão, é o modo como ela se realiza, fascinando os homens, seduzindo seus intelectos e sua fé ao dogma, ao poder do sacerdote, subordinando o povo a fazer parte do seu domínio, a Igreja.


A vontade de dogma não se contenta em cativar a fé, ela cobiça a razão, o entendimento, quer impor uma estrutura do pensamento. Apenas a fé não responde ao poder do sacerdote, não basta para subordinar-se a ele. Assim, é cunhado um argumentum, uma racionalidade, e foi o que o Doutor angélico Tomas de Aquino fez, usando os conceitos ato, potencia, substancia e acidentes de Aristóteles. Assim ficaram divinizadas não apenas a hóstia no momento da eucaristia, mas a maneira aristotélica de pensar. Aristóteles foi transformado na carne de Deus pelo sacerdote católico. Aristóteles vira dogma, ortodoxia do pensamento, é transubstanciado. Transubstanciação é o poder manifesto de transfigurar uma substância comum em substância divina, de criar Deus a partir do vulgar. O que é um dogma senão um ordenamento de frases tornado em carne de Deus, inquestionável, absoluto? Uma religião imperialista, que se pretenda universal, não poderá se expandir sem transubstanciação; não poderá garantir o seu fanatismo sem isso.

O elemento final e arrematador da transubstanciação é o ser ela um processo de comunhão, o sentido eucarístico. Ela é feita em participação com os fieis, que a recebem dócil e fervorosamente como renovação do vínculo com a Igreja. Aquele que come a carne Deus da mão do sacerdote revive sem pacto de comunhão com a Igreja. Ou seja, o liame que une cada indivíduo à Igreja é a fé no poder transmutador do sacerdote, todos devem comer de sua mão, crer que a hóstia vira a Carne de Deus em suas mãos. Assim, é o poder sacerdotal que é preservado e renovado semanalmente, a cada realização da Missa. 

A técnica da transubstanciação não é patrimônio do Catolicismo, mas onde quer que haja Dogma haverá o poder que garante esse fenômeno, esse milagre. Um milagre racionalizável, visto que é pela articulações de múltiplas estratégias, discursivas, teatrais, narrativas... que se produz essas causalidades internas, demonstráveis, persuasivas, que adquirem o status de certeza absoluta. É tolo dizer que a transubstanciação é algo ingênuo e ignorante, que seduz apenas incautos; na verdade ela é uma artimanha sofisticada, que pretende ser uma lógica implacável.
Não deixa de ser significativo que o sacerdote reserve o sangue apenas pra ele, que apenas ele beba do Sangue de Cristo. O saboroso, odorífero, escarlate vinho, elemento das festas e do cotidiano do povo. Não é uma grande sagacidade que o sacerdote prive o povo do vinho na missa? Assim é evitado associações indesejáveis com a vida comum; o sabor do vinho poderá evocar alegria, um gozo ausente da austeridade imposta; o vinho poderá fazer recordar os festins e a embriaguez, e suscitar paixões perigosas, desejos desviados, que se levantem contra a lógica da transubstanciação, intuições que de repente percebam que aquilo é trigo e vinho e não Carne de Deus. Maravilhosa percepção do sacerdote, que trata de exorcizar a perigosa embriaguez do seu domínio! A embriaguez é uma ameaça ao Dogma, a sua mecânica de causas e efeitos, aos rituais militarizados, comedidos e disciplinados que lhe dão persuasão. A embriaguez, facilmente associado ao êxtase,à vida profana, à reviravolta de paixões, pode emperrar a participação na transubstanciação. Então o sacerdote impõe a hóstia, elemento já sacro, separado da vida ordinária, sem gosto, sem cheiro, sem poupa, árido. Não mais o pão como primitivamente, mas a hóstia, meio caminho andado para a transubstanciação, afinal, o ser incolor, inodoro, sem gosto, já não se assemelha bastante a substância da Carne de Deus? Tal como essa Carne de Deus e essa hóstia serão os dogmas do sacerdotes, verdades sem gosto, inimigas das perigosas paixões, e com verdades assim que os fieis deverão matar a fome. O vinho o sacerdote reservará pra si. Ele, consciente da mecânica do seu poder, malicioso, sabe muito bem quem é o Deus da Missa, capaz de transformar a hóstia em Carne de Deus. A ele os dogmas não se aplicam; a ele a hóstia, incolor e austera não convêm, mas o rubro vinho; a vida instintiva, a luxúria, a paixão embriagante, o sangue de Deus, ele o reservará sutilmente para si mesmo. A hóstia seja para os fieis, e o vinho para o único Deus da Missa, o sacerdote.

Al Duarte

janeiro de 2011
 

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

ADEUS, CRISTÃOZINHO!

De repente, a noite ficou tão silenciosa quanto nossas bocas e gestos. A cama esfriava, e a nossa insônia nessas horas era um grande incômodo.
- Agora me diga, que crença é essa tua? Você é um cristão?
- Bem... não é tão simples...
- Ora, é muito simples, sim! Você é um cristão? Apenas responda!
- Bem, digamos... sou...assim, meio cristão... afinal, foi nesse mundo que fui educado, foi com esses fios que fui entretecido... então, fica meio difícil sair desse cárcere...não é?
- Então você não crê mesmo nisso! Está carregando um cadáver nas costas...
- Não!... não exatamente... é complicado...
- Pois diga-me! Você acredita que essa sua crença é a mais excelente de todas, que ela turbina sua existência... Ela ergue sua vitalidade como nenhuma outra o poderia? Enfim, você a toma como grande verdade, e por ela morreria?...
- ... Não... não... não exatamente...
- Ah, então, sim... você é um autêntico cristão!
Olhei confuso aquele rosto, estava iluminado, diabólico.
- Sou?
- Claro! Só um cristão tem essa flacidez de espírito, essa frouxidão de fé, essa ausência de espírito trágico, de audácia e coragem de seguir apaixonadamente o que professa. O fanatismo apaixonado deles não passa de medo, medo da solidão, de estarem sozinhos com sua diferença gritante, e por isso assumem a missão de convencer o mundo de suas verdades mal cridas; é preciso um exército de cristãos para que haja cristãos! Só um cristão, meu amor, pode ser tão broxa, tão covarde, tão sem combate em sua fé! Se existe um povinho que desconhece a paixão da fé são eles, os cristãos,,, Se você não crê nessas bobagens, por que não rompe de vez com tudo isso? Larga a mão de ser camelo, pô!
- É complicado, querida!... foi nesse mundo que fui criado, que fui entretecido...
- Ai! a ladainha dos tímidos!!! Inventa outros mundos, meu! larga a mão de ser camelo! Quer saber de uma coisa? Eu vou embora!... Adotei para mim que não vou tolerar mais a falta de paixão nos homens, e seguirei ardentemente isso; eu, que só creio e amo o que está a baixo do sol! Adeus, cristãozinho!
Nada pude fazer senão chorar amargamente, como Pedro depois de negar Jesus...

segunda-feira, 2 de maio de 2011

ARQUINIMIGO DO MUNDO E AMANTE DA TERRA

Tenho que Deus só nos ensina a amar a Terra, o tempo, os corpos... Deus só nos ensina a amar a imanência, e não a transcendência - como foi ensinado desde o início tanto da História da Filosofia quanto do Cristianismo. Tenho que Deus é contra nossa cobiça pelo transcendente tanto quanto é contra o querubim sentar-se no seu trono - uma prática satânica! Ora, se por um momento concebermos a transcendência na perspectiva de Deus, veríamos que a Terra, o tempo e os corpos, a identificação de Deus com eles, é maneira divina de transcender. A ironia é que o transcendental para Deus é o que chamamos de imanência. O que é o imperativo do amor senão, também, uma proibição à transcendência, a deixar-se elevar por ideias alienígenas, e amar o que existe, em sua aspereza, em sua concretude sôfrega... e não encaixá-lo em categorias definidas a priori; a nunca dividirmos o mundo em dois, o ideal e o real? Ora, então, ser ensinado pelo Deus-corpo é ser um espécie de desossador do esqueleto dos saberes que sustentam as épocas, o mundo, as ciências... é uma espécie de arquiinimigo do mundo ao mesmo tempo que um amante da Terra!

terça-feira, 19 de abril de 2011

DEUS E A MATÉRIA

Desgraçadamente, foi colado certo mal-estar à palavra matéria, como se ela invocasse algo de vergonhoso, de baixo, de ruim. Quase se pode ouvir um soar seco, oco e morto ao ouvir tal palavra. Não é sem significado que há a imbecilidade de pronunciar "materialismo" para caluniar o apego a Terra e ao palpável, enfiando também na categoria de "materialismo" não um método de investigação mas a embriaguez pelas quinquilharias produzidas pela feira capitalista - tão fundante do homem contemporâneo. Não esqueçamos o cabeça da decadência grega, Platão, e seu asco à matéria, seu anseio filosófico pela alma e pelas ideias descarnadas, que parece ter passado para nosso sangue. Ele fundou o valor do pensamento puro, imutável, inimigo da vicissitude indomável da matéria. 

O racional-masculino, quer domesticar a obscura e esquiva - feminina - matéria. O Iluminismo e as revoluções industriais descobriram como subjugar essa mulher arredia, e tornaram as expressões "matéria-bruta" e "matéria-prima" quase naturais. O princípio masculino chegou a seu apogeu, arrogando controle pleno sobre essa fêmea voluptuosa. 

As narrativas religiosas compareceram para pronunciar o seu "amém" a essa organização do mundo - como não poderia deixar de ser! A Teologia, mão direita de Deus - como o queria Lutero - e braço direito do Estado. Afinal, Deus criou o Homem e mandou que ele subjugasse e dominasse a Natureza! Afinal, o Homem é a imagem de Deus, ele tem razão, com a qual pode dominar a selvageria feminina dos corpos...

Mas, se... se Deus é o Pai, a matéria não seria a Mãe? (o ser humano não é  fruto  de Deus fecundando a Terra?) Não seria esse o real sentido de matéria - mater, maternidade? A Criação não é o devir-mãe de Deus? A Criação não é Deus renunciando a ser logos estático, masculino, para ser corpo, feminino, movediço? A matéria não é o corpo de Deus, a "alma feminina" de Deus? Não insinua a Escritura que o Espírito de Deus - seu aspecto mais feminil - está em intrínseca relação com a matéria? Seriam o Espírito e a matéria algo como a alma e o corpo do devir-feminino de Deus? Não é a encarnação do logos, Deus se revelando matéria, corpo, uma "prova", uma provável confirmação dessas hipóteses? E se for assim, toda a História do Ocidente, da Filosofia e do Cristianismo não é na verdade um grave erro?

Talvez o Deus-masculino esteja morto - alguns dizem - mas o Homem, o príncipe herdeiro, assumiu o trono, e quer seus direitos absolutos sobre a matéria e o corpo; ainda quer silenciar o mundo dos afetos e paixões com a razão. O racional quer ser espiritual exorcizando o diabo-feminino das paixões. Esse príncipe herdeiro quer se passar pelo messias, quer ser o Cristo... Sim, fomos avisados que surgiriam falsos cristos!...





quinta-feira, 31 de março de 2011

Eles vala dão
Eu, valha-me Deus!
Comida predileta dos habitantes de Sodoma:
Pão de Ló
Cantiga para o diabo cirandar:
Escravos de Jó
Pedra preciosa para o método farisaico de ensinar aos pecadores o caminho da justiça:
Pedra de mó